Vamos refletir sobre o próximo voto!?

Na minha opinião, estamos (sociedade, como um todo) confundindo, intencionalmente ou não, algo que me parece simples: o que é dever meu, cidadão, e o que é dever do Estado. Ai, nessa briga de vizinhos barraqueiros, estão se sobrepondo questões que independem de governos, enquanto o que de fato depende, fica em segundo plano.

A meu ver, depois da votação de domingo, dia 7, a composição de Senado e Câmara, torna mais difícil governar (seja lá quem vença dia 28), roubar (em segredo, só pra um lado) ou tomar decisões, digamos, não convencionais. Acho!

O Senado será ocupado por 21 partidos. Já a Câmara, por 30 partidos, sendo que as maiores bancadas são do PT (56) e PSL (52).

Sabe-se que presidentes em ambientes multipartidários necessitam construir coalizões pós-eleitorais se quiserem escapar da condição, no mínimo inconveniente, de governar na condição de minoria. Presidentes minoritários não apenas enfrentam mais dificuldade para aprovar a sua agenda no legislativo, mas também gastam mais recursos políticos e financeiros para governar. Ainda por cima, são objeto de maior escrutínio político do legislativo tornando seus governos mais vulneráveis a crises políticas que podem inclusive abreviar seus mandatos presidenciais.”, diz o professor Carlos Pereira, da Fundação Getúlio Vargas.

Caso o PT vença, isso talvez não seja um grande problema, pois já governou em situações parecidas, Já o candidato do PSL, ao que parece, gosta de jogar pra torcida e talvez esteja disposto a manter esta estratégia no pós-eleição, “dibrando” o Congresso para gerar um “constrangimento”, digamos, e conseguir, na marra, apoio de deputados e senadores. Sabe quem já fez algo parecido? O Caçador de Marajás…

Não sou cientista político e como disse a querida Eva Brandão, também me sinto um peixinho bem pequenino nesse oceano. Mas devo opinar sobre o mundo que eu enxergo. É importante saber o que os outros pensam? Sim, mas é essencial saber interpretar as informações e confrontá-las com a nossa própria realidade, para tomarmos as nossas decisões de maneira lúcida.

Deve haver paixão nas decisões? Creio que sim, mas na dose certa, sem distorcer fatos ou percepções.

As opções postas à mesa para este segundo turno de eleição presidencial, não são as melhores, no meu entender. Basta constatar que chegaram a este ponto os dois candidatos mais rejeitados. Um arrastou o outro até aqui, na porrada. Penso que o nosso sistema político não favorece o surgimento de forças políticas realmente capazes de governar para o povo. Alianças são necessárias neste jogo. Sem isso, o eleito roda ou é colocado de canto. Portanto, não há espaço para os “bonzinhos”. Por isso que depois de 2006, quando votei em Heloísa Helena para presidente, desisti de votar. Achei que o PT tinha dado uma “endireitada” e julguei que esse lance de direita e esquerda era tipo esquema tático em racha de final de semana: depois que a bola rola, todo mundo se mistura em campo.

Mais ou menos nessa época, mudei de cidade. Trabalho há 13 anos numa cidade do interior do Ceará e a realidade que se apresenta aqui possui elementos diferentes dos encontrados na capital. Portanto, tenho mais dados para entender o mundo ao meu redor. Conheci pessoas e lugares que me fizeram ver uma outra parte do conjunto.

Conversando, observando, lendo, refletindo, ponderando, imaginando cenários, percebo que essa eleição de 2018 – pelo menos dentre as que tive o direito de exercer o voto – é a que se apresenta mais complicada. De um lado, um candidato/grupo que não faz questão alguma de esconder que está ali como Laranja (até tenho minhas dúvidas se aquele L que ele faz com a mão antes dos debates é em homenagem ao ex-presidente ou à fruta). Um candidato que, de fato, é apenas um rosto emprestado ao Partido dos Trabalhadores. Professor, aparentemente boa praça, guitarrista, de uma certa forma elogiado até por alguns do PSDB (pasmem!), mas, ao meu ver, uma figura decorativa no PT.

De outro lado, um candidato que mostra, dia após dia, que não tem a menor capacidade nem compostura para comandar um país. Não sabe o nome de seu vice. Não sabe coisa alguma sobre economia. Incentiva a intolerância (capim para os eleitores de Lula), machismo (“não te estupro pois você não merece”), homofobia (prefere um filho morto do que homossexual) e homenageia sem o menor pudor figuras assombrosas de nossa história (torturadores).

A nenhum desses dois eu gostaria de destinar meu voto. Muitas pessoas conhecidas minhas estão nesta mesma situação e para estas, gostaria de propor a leitura e reflexão dessas minhas linhas aqui 🙂

“Mas o PT roubou!!!”. Ok, fato. Mas, como mencionei acima, é uma consequência do “jogar o jogo”, infelizmente. Quero tirar o peso da corrupção? De forma alguma. Procuro combatê-la até dentro de mim mesmo todo santo dia. O que quero dizer é: o “vencedor” terá que jogar este mesmo jogo – ou pagar o preço por não jogá-lo! Com a pulverização da Câmara e do Senado, não haverá vida fácil para o próximo governo.

Ademais, o PT tem membros presos e/ou fora de combate. Dilma foi retirada da presidência do país e não conseguiu se eleger senadora. Se o PT tivesse esse poder todo, você acredita mesmo que isso teria acontecido? Neste jogo, basta desagradar parte dos aliados e pronto, dançou! Além do mais, a lupa sobre o PT, hoje, é enorme – sociedade, imprensa e demais partidos.

Nos depoimentos colhidos da operação Lava Jato – tão citada e ao mesmo tempo tão desconhecida – muito se fala sobre o esquema no qual o PT estava envolvido (tomado como  verdade absoluta) e também muito se fala sobre os outros atores (parte ignorada, absolutamente). O próprio “Ode” pai afirma que o esquemão existia desde a sua época…

Resumindo: esse discurso de que o PT voltando ao poder, toda a corrupção volta junto, tem buracos. A corrupção não foi patenteada pelo PT e tem muita gente que já conhece a fórmula, não se iluda.

“Esquecendo” isso, o parâmetro que temos do PT é considerável. Muitas coisas que foram feitas ao longo desses anos beneficiaram milhões de pessoas que, diferente de mim ou você que está lendo agora,  tiveram necessidades que nós nem conseguimos imaginar. Converse com essas pessoas. Veja o que melhorou na vida delas. Agora pense no que sua vida piorou ao longo deste mesmo período. Os problemas que ora enfrentamos são totalmente culpa de um governo ou também de uma sociedade que a cada dia é mais individualista, egoísta e desigual? Que a cada dia respeita menos o outro, que não mede palavras para te desrespeitar nas redes sociais, que se usa da religião para justificar a homossexualidade como pecaminosa, ou até mesmo doença, mas é capaz de apagar o aplicativo da Bíblia para acumular mais pornografia no smartphone. Que não é capaz de dar um bom dia pro rapaz que recolhe o seu lixo…

Para tentar equilibrar as coisas, vamos fingir, por uns instantes, que esquecemos o lado pobre de humanidade do outro candidato. O que pensar de propostas como a de dar vouchers para estudantes pobres irem para escolas particulares? Isso não seria se isentar de investir na melhoria do ensino público? E a preocupação com a “doutrinação nas escolas” que pode levar ao ensino à distância e consequentemente mandar a criança de volta pra casa? E os pais, fariam o quê? Parariam de trabalhar?

E os investimentos no Ensino Superior? Quando cheguei na cidade em que moro hoje, havia apenas uma universidade. Hoje são duas, além de um Instituto Federal e milhares de outras vagas em faculdades particulares mas que podem ser ocupadas com suporte do governo. O que diz o Capitão (ou até os filhos, vai…) sobre isso? E com relação ao liberalismo econômico, você tem ideia do que seja isso? Já pesquisou? Acha que é uma boa? E sobre dar direito de portar armas, você realmente acha que está diretamente relacionado à diminuição da violência? Então, por quê policiais são assassinados? “Ah, mas tem país ai que o cidadão de bem pode ter arma e o índice de assassinatos é baixo”. Ok, mas você sabe o que é o IDH? Já viu o desses países?

E sobre ter tantos mandatos como deputado e não apresentar contribuição significativa? E sobre ser candidato a presidência da Câmara e obter apenas 04 (quatro, four) votos? E quando seu escolhido para ministro diz que gostaria de privatizar todas as estatais? E sobre os estados que terão tratamento secundário caso não tenham dado maioria dos votos para ele? E a não assinatura do protocolo para combater as FakeNews? E essa coisa de ser dado à teorias da conspiração? E sobre a ideia de acabar com “toda forma de ativismo”? E não aceitar outro resultado das urnas que não seja a vitória (dele)? E toda a atenção dada pela imprensa internacional, em sua maioria criticando a postura deste candidato? Ah, talvez seja porque o brasileiro entende mais de história alemã do que a própria Alemanha…

Carlos Ranulfo, professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais, diz o seguinte:

De todo modo, cabe dizer que o desempenho do candidato do PSL nas pesquisas mostra que estamos diante de algo mais profundo do que um fenômeno eleitoral. Assistimos à conformação do que pode vir a se constituir na base social para um movimento – não necessariamente um partido – de direita autoritária no país. Na sua versão mais extrema, presenciamos algo impensável a apenas alguns anos atrás: grupos de cidadãos clamando a céu aberto pela volta dos militares ao poder.

O candidato do PSL também se diz um admirador de Trump e Macri. Você tem ideia de como está a Argentina hoje?

O que tem acontecido hoje, ainda é reflexo de tudo que aconteceu depois das eleições de 2014. Aécio e seus Blue Caps, ao não aceitarem o resultado das urnas, iniciaram o processo que culminou com a saída de Dilma e nos trouxe até aqui. Poderíamos até discutir e discordar se foi justo ou não, mas que a motivação foi por puro revanchismo, ah, isso foi! Fernando Limongi, professor do Departamento de Ciências Políticas da USP, em entrevista a Carla Jimenez (El País), afirma:

Ninguém que critique o Bolsonaro está defendendo a Dilma ou necessariamente dizendo que PT é santo. É esse maniqueísmo que o centro e a direita brasileira aceitaram jogar e estão agora sendo vítimas dele sem perceber, ou o que?”

Portanto, não se trata de ser a favor da “corrupção do PT”. Outro partido pode vir a fazer o mesmo. Isso não é exclusividade de um só. É ilusão, ingenuidade ou leviandade pensar e dizer isso. Assim como votar no candidato do PSL não faz deste eleitor, necessariamente, um homofóbico ou machista, votar no PT não faz do eleitor um corrupto. A questão é a falta de preparo demonstrada pelo candidato do PSL (candidato esse que procurou outros partidos para se lançar como tal, sendo o PSL o que aceitou suas “condições”). A falta de responsabilidade humana e social. Falta de propostas que realmente sejam benéficas para o crescimento de um país que está “só o oco e os caborés cantando dentro”! Além disso, toda a ameaça – que parece estar passando por um processo de sublimação a cada nova pesquisa de intenção de votos que é divulgada – de sermos liderados por alguém (ou alguns) que acabe de desmantelar o que já está ruim do ponto de vista econômico e principalmente civil. Governar um país não pode ser uma experiência pra ver no que vai dar…

Então, caríssimos, diante da falta de opção, mas principalmente do risco de entregarmos o país para uma equipe sem capacidade humana, moral, emocional, técnica e intelectual, convido a refletirmos sobre a possibilidade de votar no PT, ora representado pelo professor Fernando Haddad. Temos até o dia 28 para pensarmos bem e tomar uma decisão responsável. O preço que podemos pagar é muito alto não apenas para nós, adultos de hoje, mas para os que virão.

Devido a quantidade de votos obtida no primeiro turno e por considerar pouco provável que grade parte desse eleitorado mude de ideia, matematicamente falando, votar branco ou nulo é equivalente a votar – ainda que indiretamente – em Bolsonaro. Abstenção, idem. Hoje, todos nós já sabemos que os votos brancos, nulos e abstenções são descartados.

Não vamos carregar esse peso sobre os ombros! Não vamos nos deixar intimidar pelo carimbo de corrupto – que não precisa ser nosso – por fazer esta escolha emergencialmente.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *