Arrocha o nó!

"Segue o texto do Guto com algumas observações para reescrita.
 Um abraço fraterno !!"
Segunda-feira, 3 de abril de 2017, 23:29

Esta foi a última mensagem que recebi do camarada (ou kmarada, como ele costumava escrever) Miguel Silva. Menos de 12 horas depois, ao que tudo indica, um caminhão desgovernado o desplugou da matrix. Ninguém deveria morrer aos 45 anos ou menos. É tempo insuficiente para qualquer coisa.

Escrevo essas linhas não para lamentar a sua morte, mas para tentar contar um pouco do que representa o Miguel para o Curso de Licenciatura em Matemática da UVA. Acredito que todo aluno deste curso deve conhecer sua história. Aqui, darei o meu olhar sobre tal trajetória.

Entrei na UVA em 2005. A primeira imagem do Miguel que me vem à mente é a dele saindo da secretaria do Curso. Não usava chapéu, mas já era careca assumido. Camisa pólo, calça jeans, aquele sapato que sempre parecia bem maior do que o seu pé, mochila nas costas, capacete no braço e chave naquele cordão enorme. Depois fiquei sabendo que o seu contrato como professor substituto já havia se encerrado mas, para que os alunos não ficassem sem aulas, ele continuou ministrando as disciplinas até o final do semestre.

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Em 2007, mesmo sem ser professor do curso, continuava a contribuir, participando de bancas e orientações de monografias. Nesse mesmo ano ele fora aprovado no concurso público para a vaga de Educação Matemática em nosso curso mas ficou em lista de espera, assumindo em 2008.

Pouco tempo depois de assumir, ele se afastou pela primeira vez para concorrer a uma vaga na Câmara Municipal. Como ele era uma pessoa simples, sem grandes posses, organizava formas alternativas para financiar a campanha. Embora eu nunca tenha transferido meu título e tendo aversão às urnas, acreditava na boa vontade dele. Em 2008 participamos de um jantar para angariar recursos.

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Prof. Emerson Almeida (esq.), Lourdinha, Prof. Diniz Araújo, Miguel, eu e Ju.

Provavelmente por contar apenas com honestidade e boa vontade, não conseguiu se eleger.

Já em 2009, com o Miguel se engajando mais fortemente nas atividades do Curso, tivemos, talvez, a maior oportunidade dos últimos 10 anos: PIBID. Encaminharam a ideia às coordenações e cada curso estaria encarregado de escrever o subprojeto. Na época, Miguel, Wendel (então professor substituto) e eu escrevemos o texto, pesquisamos e indicamos as escolas. A princípio, pela experiência com formação de professores, o Miguel seria o coordenador de área, uma vez que já era professor efetivo e o Wendel não. Eu sou bacharel e, até aquele momento, com quase nada de vivência nesta área. O projeto atrasou para começar e, em 2010, Miguel já estava cursando o seu mestrado na UFC e não tinha como assumir. Ou seja, o maior projeto em vigor hoje em nosso curso, começou também pelas mãos do Miguel.

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Na abertura da II Semana de Matemática da UVA – 2010

Enquanto isso, íamos travando as lutas homéricas no curso nesse período. Era luta muita! Mas isso era a cara do Miguel. Firme nas suas opiniões, segurou o tranco com a gente, mesmo dividindo as atenções com o mestrado – que cursara sem afastamento oficial, por conta do estágio probatório. Graças a essas nossas convicções, temos um curso muito melhor hoje. Sofremos, muito. Mas conseguimos preparar uma base mais firme para conseguir crescer.

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Nessa época as reuniões já eram mais tranquilas… Depois da tempestade vem a bonança!

Em 2011, quando o PIBID foi ampliado, fizemos a seleção juntos. Eram mais 10 bolsas que ganhávamos e ele seria o orientador – novo coordenador de área – desses estudantes.

Nessa mesma época assumimos a coordenação do curso; eu como coordenador e ele como adjunto. Em 2012, pela primeira vez, fizemos uma recepção para os calouros no espaço Trajano de Medeiros (CIDAO).

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Enquanto isso, íamos desenvolvendo nossas atividades no PIBID, até que na segunda metade do ano ele se afasta, novamente, para tentar a vaga na câmara municipal. Nessa época, Verônica (então aluna do curso) e eu gravamos os seus vídeos de campanha.

Neste mesmo ano nosso projeto pedagógico finalmente entrou em vigor e muito do que temos hoje deve-se a sua arte de fincar o pé. Nas reuniões de preparação do projeto ele sempre tinha a preocupação de que tivéssemos um curso para os estudantes e não para os professores.

Também nessa época, ele encarou o desafio de costurar um intercâmbio entre a Universidade Distrital de Bogotá (Colômbia) e a UVA. Ele chegou a passar uma semana em Bogotá para acertar os detalhes mas, aos 44 do segundo tempo, não deu. A ideia era levar estudantes do curso para passar um semestre lá e receber alunos de lá para ficar um semestre aqui. Seriam 4 anos nessa troca… Mas, por conta de verbas não autorizadas, murchou tudo. Até gravamos um vídeo com ele e os alunos participantes, mas nunca foi ao ar, uma vez que a viagem não se concretizou. Seria no segundo semestre de 2013.

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Diego, Patrícia, Joelma e Maria do Remédio seriam os estudantes que iriam para a Colômbia em 2013.

Continuamos batalhando no curso. O Miguel era aquele cara que jamais dizia não para o trabalho. Nunca vinha com aquele discurso “poxa, cara, é que eu tô com tanta coisa agora que não vai dar…”. Não. Sua resposta era “Bora, arrocha o nó!”. De uns tempos pra cá que ele tava com umas arrumação de “adelante”… Fresquin que só.

Em 2013 representamos o curso no I Fórum Cearense das Licenciaturas em Matemática.

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No I Fórum Cearense das Licenciaturas em Matemática – UECE – Novembro de 2013.

Ao final de 2013 para o início de 2014 estávamos saindo de nosso mandato na coordenação. Nossa última atividade juntos foi a V Semana de Matemática, onde ele praticamente foi atrás de tudo em termos de patrocínio. Fizemos o evento durante uma greve! Como já falei, não tinha essa de “vixe, será que vai dar?”. Não. Era “bora”!

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No encerramento da V Semana de Matemática da UVA, em 2013, com as professoras Luiza Pontello (esq.) e Maria José Araújo.

 

Ele deveria ter assumido a coordenação em seguida mas, malandro que era, para não assumir o abacaxi, resolveu ser aprovado num doutorado… Ele consegue aprovação no doutorado da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), para estudar sobre História da Educação Matemática no Brasil.

Aliás, em 2014 tentei a mesma coisa. Ele e a Cláudia – que hoje também é “cria” nossa, doutoranda e professora do curso – me ajudaram muito na escrita do projeto. Não tinha essa de “vou ver aqui e assim que der te respondo”. Quando respondia o e-mail, já era com um milhão de correções e sugestões. Tinha hora que enchia o saco, mas esse era o Miguel.

Mesmo afastado oficialmente, nunca ficou alheio ao curso. Continuava participando, na medida do possível, das coisas que envolviam trabalho de colegiado. Na verdade ele nunca foi aquele professor que “joga pra galera”, mas no trabalho do curso, de colegiado, ele tinha uma atuação muito forte…

Como amigo, melhor ainda. Em toda viagem sua pelo mundo – e não foram poucas – ele me trazia algo. Nem que fosse um chaveiro.

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Acho que ele quis frescar…
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Ele disse que traria café, mas só trouxe um ímã de geladeira…

Juntos, submetemos um trabalho para um encontro na Argentina e quase fomos presos. É que não entendemos muito bem o edital e achávamos que só deveríamos pagar se fosse alguém apresentar… Que nada! Fomos cobrados com ameaça de processo! A Renata Teófilo e o Nilton Neves também quase são tratados como foragidos. Como tinha mais gente na mesma situação Brasil afora, conseguimos nos safar (eu acho).

Vários projetos nossos ficaram pelo caminho:

  • Gravar um vídeo sobre a história de nosso curso e a estrutura atual para exibir nas escolas de ensino médio, para tentar chamar novos talentos;
  • Um livro com artigos de bolsistas e ex-bolsistas do PIBID;
  • Três artigos que foram pré-aprovados e estávamos trabalhando neles para serem apresentados no CIBEM, na Espanha, ainda este ano… Estes tinham autoria dividida entre ele, prof. Nilton Neves, eu, Deyse, Guto e Daucília (estes últimos três, alunos do curso).

Enfim, tem muita coisa que pode ser dita, mas o mais importante é que esperávamos um doutor em 2018 que seria a prova viva para nossos alunos de que é, sim, possível “chegar lá”. Uma pessoa com infância comum, simples, sem riquezas materiais, mas que somente com seu esforço, dedicação, bom humor e honestidade, conseguia realizar os seus sonhos. Terminou o curso de Matemática na UVA, mestrado na UFC e doutorando da UFSCar.

Para nossos estudantes, com trajetórias e dificuldades parecidas, só em ver no curso a figura do Miguel, já valeria mais do que qualquer palestra motivacional. Ele seria a mensagem. Ele seria o exemplo vivo. Agora, temos nós essa missão de tentar contar aos nossos alunos quem foi Miguel Silva. Cabra bom, aguerrido, às vezes incompreendido, até mesmo por mim, mas uma pessoa totalmente do bem. Não tinha como ter raiva do Miguel. Ele não discutia as pessoas, ele discutia as ideias…

Agora lembro de uma vez em que tivemos um bate-boca medonho na reunião de colegiado e o Nilton perguntou se teria que “pedir pros meninos calarem a boca”. Nos calamos, e ao terminar a reunião, nem precisamos nos desculpar. Já estava tudo certo. Com o Miguel, era assim…

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Na noite desta terça, tive o momento mais difícil da minha vida adulta. Entrar em uma sala de aula de nosso curso para comunicar aos nossos alunos o que tinha acontecido e falar um pouco sobre o camarada Miguel.

Hoje estivemos no velório. Muita tristeza.

Como é difícil lidar com toda essa situação. Quantos questionamentos. Quanta falta de respostas. São tantos medos que me cercam agora… Somos tão frágeis. Como bem disse o Nilton (Neves) hoje, parece que realmente vivemos em uma matrix e por algum motivo alguém vai lá e nos despluga.

Que a sua ida precoce não seja em vão. Que deixe gravado em nossas memórias o exemplo de vida deste nordestino simples, porém forte. Não por acaso seu sobrenome é Alves da Silva, exatamente o mesmo de meu pai. Teimosia e vontade de viver. E que possamos seguir com mais força, com a sua força em nós. Tá difícil, mas vamos conseguir.

Obrigado, camarada Miguel!

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Em 2013 entramos em sala para conversar com os estudantes as dificuldades da época, principalmente com a falta de contratação de professores.
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Ao final de 2016 nos encontramos em nossa confraternização. Se para o trabalho ele não ficava alheio, imagina para comer…

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